O Cérebro e Seu Sistema de Freio!! Vamos Descobrir Como Isso Funciona?!
Como Funciona o Sistema de Freio do Cérebro?
Imagine você esperando na fila do supermercado e perceber que alguém passou na sua frente para ser atendido. Ou então, você não conseguir algo que você queria muito, ou mesmo, levar uma fechada no trânsito de um outro motorista.
Ter que parar de assistir um filme ou seriado que está muito legal para lavar louça, fazer as tarefas domésticas, entre tantas outras infinitas situações que, podem provocar raiva, frustração e irritação.
Imaginou?
Agora, tente identificar os sentimentos e emoções que você sentiu e em seguida, identifique o que você teve vontade de fazer, mas não fez, por reconhecer que se fizesse, possivelmente as consequências não seriam as melhores para você e para as outras pessoas envolvidas.
Com as cenas já visualizadas, vamos entender o que nos fez frear (assim espero) nosso impulso de reagir de tantas e inúmeras maneiras inadequadas socialmente e impulsivas que podemos ter tido vontade de fazer.
O nosso grande amigo nessas horas e que funciona como um freio em nossos impulsos é o Controle Inibitório, um sistema que mora dentro do nosso cérebro (dentro do Córtex Pré- Frontal) e que faz parte das Funções Executivas do Cérebro.
Como Funciona O Universo Mágico do Cérebro
As Funções Executivas são responsáveis por nos mantermos atentos, concentrados, focados. Elas nos permitem conseguir planejar e organizar tarefas e nos autorregularmos. Dentro dessas funções, está nosso Controle Inibitório, que nos ajuda a conseguir controlar os nossos impulsos e a refletir antes de realizar algo.
Como o próprio nome diz “Controle Inibitório”, ele tem a função de controlar e inibir nossos impulsos e nos dar a oportunidade de pensarmos e refletirmos se aquilo que temos vontade de fazer seria adequado de ser feito ou não.
O controle inibitório é responsável por realizar uma espécie de filtro em nossa amígdala cerebral (uma porção do cérebro formada por um grupo de neurônios, responsável pela ativação imediata das emoções primitivas e das nossas reações de luta ou fuga).
A amígdala cerebral diante de uma situação vivida em que nos sentimos irritados ou com raiva, ou mesmo em que a entendemos como uma ameaça, é ativada.
Como um instinto protetivo, um instinto de sobrevivência, ela se arma, ativando o nosso cérebro primitivo ou reptiliano, cuja função é nos proteger de ameaças.
Essa reação é o que nos faz perder o controle, gritar, atacar, e por vezes, até reagir com violência.
Por isso, abordamos sempre por aqui a importância de que vocês, pais, professores ou qualquer um de nós, que convivemos com nossas crianças, conseguirmos agir de forma respeitosa, sem gritos, ameaças ou violência.
Pois se reagirmos dessa forma e o cérebro da criança, entender tais comportamentos como ameaças a ele e à criança de alguma forma, a tendência da amígdala, é ativar e entrar em resposta de luta ou fuga, ou seja, nos proteger, utilizando para isso as respostas primitivas.
Tais respostas, podem fazer com que os comportamentos das crianças sejam aqueles que nós que lidamos com elas não queremos que aconteçam, como gritos, jogar coisas, agressões físicas, desorganização e desregulação total do comportamento dela.
As crianças não irão conseguir gerenciar impulsos como nós adultos conseguimos, ou pelo menos, deveríamos conseguir, portanto, é nossa função, auxiliarmos nesse processo.
O Cérebro é Plástico, mas não é brinquedo
E o que faz a diferença entre você e seu filho(a) ou aluno(a), é o fato de que seu cérebro, enquanto adulto, já está formado e com o córtex pré-frontal amadurecido e em pleno funcionamento.
Vale lembrar novamente por aqui, o que já tenho abordado em alguns textos: O CÉREBRO DAS NOSSAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES AINDA ESTÁ IMATURO E ESSE AMADURECIMENTO, SÓ IRÁ FINALIZAR POR VOLTA DOS 24 ANOS DE IDADE. O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL SERÁ A ÚLTIMA REGIÃO DO CÉREBRO A AMADURECER.
Precisei explicar tudo isso a vocês para que entendam que a criança não consegue ainda reagir às situações com a mesma regulação do adulto, com a mesma capacidade de se autocontrolar.
Portanto, esperar que ela consiga reagir com calma e tranquilidade diante de uma situação onde ela não consiga o que quer, onde seja forçada a parar de fazer algo bem legal como assistir uma série ou um desenho que ela adora e ter que ir tomar banho, será apenas uma expectativa, que muito provavelmente, ela não dará conta de cumprir.
Precisamos entender que a criança não é capaz de tomar decisões levando em conta o futuro, o planejamento, pois a região que cuida dessas funções no nosso cérebro, também é o córtex pré-frontal, que nos permite planejar, organizar, analisar consequências, entre tantas outras funções.
Por isso, crianças são impacientes, imediatistas e querem tudo para ontem, perguntam 946538 milhões de vezes se já chegou ou se falta muito para chegar (que pai ou mãe aqui já não viveu essa situação?).
Deixo aqui, inclusive, uma dica para que vocês evitem contar algo para a criança com muita antecedência ao acontecimento, como uma viagem ou um passeio, uma festa de aniversário, já que ela também não apresenta noção espaço-temporal desenvolvida, o que a fará ficar ainda mais ansiosa.
Diante de todas essas explicações acima, entenda que a capacidade de colaboração da criança é limitada e ela nem sempre poderá corresponder àquilo que esperamos dela, e é por isso que precisamos compreender essas limitações e adequar enquanto adultos as nossas expectativas.
Mas de que forma podemos auxiliar a criança? Como podemos agir de maneira a permitir que as crianças exercitem regulação e controle dos seus impulsos?
Algumas dicas costumam auxiliar:
– Em primeiro lugar, você adulto precisa estar bem, regulado e tranquilo com suas emoções e sentimentos;
– Cuide de você adulto, tenha momentos de lazer, de diversão, e permita-se relaxar, fazer nada de vez em quando e lembre-se de que para cuidar da criança, você precisa estar bem com você em primeiro lugar (há textos no blog falando sobre cuidar de quem cuida);
– Se você perceber que não está bem, que seu limite de tolerância e paciência está prejudicado e fará com que você acabe tomando decisões de que possa se arrepender com a criança, procure sair da situação;
– Ao sair da situação, vá até seu cantinho da calma, zele para que a criança não se machuque ou peça ajuda de um outro adulto de confiança e diga à criança que voltará quando estiver mais calmo para lidar com aquela situação com ela;
– Nunca deixe de retornar após se acalmar. Ao se sentir mais calmo, retorne e converse com a criança sobre o que aconteceu e a forma como a situação poderia ser resolvida de uma forma mais adequada. Não imponha, construa uma solução junto com a criança;
– Perceba e conheça seu filho, entenda o que chamamos de gatilhos que podem disparar comportamentos de birra, de descontrole, de dificuldades de regulação dos impulsos e do humor, como cansaço, fome, sono, sede, frio, calor, lugares que não são próprios para as crianças, excesso de tempo de espera, etc;
– Siga sempre uma rotina e aja de forma previsível, ou seja, combine com as crianças as ações que acontecerão de forma antecipada, fazendo com que a criança consiga se organizar e se sentir segura, o que também evita reações de descontrole e de entendimento do cérebro de ameaças diante das surpresas ou da imprevisibilidade;
– Ao começar a perceber que a criança está atingindo o nível de limite dela, a convide respeitosamente a ir para o Cantinho da Calma (temos um texto sobre isso), pratique alguma atividade ou brincadeira de respiração com ela (no texto de Mindfulness, temos várias sugestões);
– Provoque distrações, como direcionar a criança para outras propostas, fazer uma brincadeira improvisada ou até mesmo algo que a faça rir, de forma a distraí-la de seu foco de irritação e a auxiliá-la na capacidade de regulação;
– Dê opções de escolhas limitadas e auxilie a criança a tomar decisões e a fazer escolhas, como “temos que tomar banho, nós vamos para o banheiro dando pulinhos ou cantando uma musiquinha”?;
– Estude, leia sobre desenvolvimento infantil, aprenda sobre os comportamentos que são esperados para cada faixa etária da criança e entenda que muitas vezes aqueles comportamentos que a criança está apresentando, são esperados para a idade dela (mas mesmo sendo esperados, precisamos orientar e aproveitar cada situação para que sirva de aprendizado);
– Não leve para o lado pessoal: Crianças não são seres programados para tirar os adultos do sério, são apenas descobridores, exploradores diante de um vasto mundo que, diga-se de passagem, é muito maior e recheado de desafios do que a barriga da mamãe;
– Lembre-se de que somos a espécie que mais inteligência temos e podemos utilizá-la a nosso favor com nossas crianças, usando nosso cérebro já maduro e desenvolvido de um adulto, para auxiliá-las;
Deixo como dica final, para que assistam o vídeo “O cérebro na palma da mão” do Dr. Daniel Siegel (muito fácil de encontrar no Google com esse título) e usem a estratégia com suas crianças em casa ou em sala de aula.
Crianças ainda bem novas, de 3 anos para frente, já conseguem compreender o exemplo do “cérebro na palma da mão”, se explicado em um linguagem que ela compreenda.
Adote o uso do “Cérebro na palma da mão” com suas crianças e proporcione a elas condições de aprenderem comportamentos de regulação, autonomia e autocontrole. Utilize você também o exemplo para demonstrar à criança quando estiver ficando irritado e precisar se acalmar.
Em educação, não há mágicas e nem resultados imediatos. Educar crianças também é uma tarefa que exige dos adultos muito estudo, muita paciência, muita regulação, calma, compreensão e acima de tudo muitaaaas descobertas acerca do universo infantil.
Por isso, fique aqui com a gente, leia nossos textos e permita-se aprender com toda nossa equipe de colunistas.
Boas descobertas com os cérebros de suas crianças por aí!!
Por Renata Lela
Foto Capa: FreePik
Texto muito esclarecedor e digestivo.Abordaria mais a parte afetiva e como as criancas6 lidam com suas emoções em cada faixa etária.Parabéns!
Olá Lucia! Obrigada pelo feedback!
Enviarei sua sugestões para as nossas psicólogas!
Obrigada!