O BRINCAR E SUAS REDESCOBERTAS

É sabido que o brincar é importante para o desenvolvimento infantil, mas para conversar melhor, gostaria de refletir sobre o tema.

Como foi sua infância?

O Brincar e a brincadeira fizeram parte dessa fase?

Você foi uma criança que pulou, se sujou, se machucou, fez descobertas, se aventurou, se divertiu?

Acredito que o brincar em algum momento surgiu na sua vida, mas como está o seu filho ou filha. Eles estão brincando?

Após esta reflexão, venho conversar com você sobre a importância do brincar.

O brincar é um comportamento natural do ser humano, toda criança vai apresentar o comportamento, independe da faixa etária, das condições sociais e etnia.

O brincar é espontâneo, natural, livre, genuíno, tempo de fantasia, é da essência da criança.  É a ação que a criança exerce quando está no processo de desenvolvimento físico, emocional, social, de autoconhecimento, de conhecimento e de tudo que a rodeia.

O brincar acontece com um simples brinquedo caseiro, com brinquedos comerciais, baratos ou caros. O mais importante é saber que a criança não precisa de muito para fazer o brincar ser mágico.

O Brincar da criança acontece sozinho, em grupo, com o adulto, com outras crianças. Acontece de forma livre, direcionada ou estruturada.

Pensando nesta perspectiva, o brincar pode ser acentuado como a linguagem automática da criança e nada nutre mais o cérebro do que essa experiência.

De acordo com o dicionário:

Brincar – verbo Intransitivo

1. Divertir-se.

2. Entreter-se com alguma coisa Infantil.

3. Galhofar; gracejar…

O direito de brincar:

Está no Estatuto da Criança e do Adolescente, na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na Declaração dos Direitos da Criança, na Convenção sobre os Direitos da Criança e no Marco Legal da Primeira Infância (Lei 13.257). Nenhuma criança deve ser punida por brincar ou tirada do seu direito de brincar.

A Declaração dos Direitos da Criança traz no 7º princípio os seguintes direitos.

A criança tem direito à educação, para desenvolver as suas aptidões, sua capacidade para emitir juízo, seus sentimentos e seu senso de responsabilidade moral e social.

Os melhores interesses da criança serão a diretriz a nortear os responsáveis pela sua educação e orientação; esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos pais.

A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando aos propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito.

O artigo 31 da Convenção sobre os Direitos da Criança traz:

  1. Os Estados Partes reconhecem o direito da criança ao descanso e ao lazer, ao divertimento e às atividades recreativas próprias da idade, bem como à livre participação na vida cultural e artística.
  2. Os Estados Partes respeitarão e promoverão o direito da criança de participar plenamente da vida cultural e artística e encorajarão a criação de oportunidades adequadas, em condições de igualdade, para que participem da vida cultural, artística, recreativa e de lazer.

No Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei nº 8.069/1990), mais precisamente no artigo 16 relata:

O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:
IV – Brincar, praticar esportes e divertir-se.

O Marco Legal da Primeira Infância (Lei nº 13.257/2016), descreve:

Art. 5º – Constituem áreas prioritárias para as políticas públicas para a primeira infância a saúde, a alimentação e a nutrição, a educação infantil, a convivência familiar e comunitária, a assistência social à família da criança, a cultura, o brincar e o lazer, o espaço e o meio ambiente, bem como a proteção contra toda forma de violência e de pressão consumista, a prevenção de acidentes e a adoção de medidas que evitem a exposição precoce à comunicação mercadológica.

Art. 17 – A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios deverão organizar e estimular a criação de espaços lúdicos que propiciem o bem-estar, o brincar e o exercício da criatividade em locais públicos e privados onde haja circulação de crianças, bem como a fruição de ambientes livres e seguros em suas comunidades.

A convenção dos Direitos da Criança (Unicef, 2004), refere o brincar como um princípio fundamental e particular da criança se exprimir, pensar, interagir e comunicar com outras crianças.

O brincar também está na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como um dos princípios para aprendizagem:

1. Conviver,

 2. Brincar,

3. Participar,

4. Explorar

5. Expressar

 6. Conhecer-se.

O que as brincadeiras promovem?

A Linguagem;

O Afetivo;

O Social;

O Motor;

O Cognitivo;

O Sensorial;

O Visual;

O Auditivo;

A Brincadeira é uma potencializadora da aprendizagem, quando a criança brinca, aprende, envolve todos os sentidos, sensações, habilidades físicas, motoras e cognitivas, ou seja, envolve corpo, mente e emoções.

O brincar “É uma das tarefas da Infância com maior responsabilidade no desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor” (Marques)

O brincar promove o desenvolvimento pessoal e social.

Promove tomada de decisões; expressar sentimentos e valores.

Promove o partilhar; expressar-se individual ou coletivamente.

Promove movimentos; resolução de problemas.

O brincar Faz com que a criança conheça o seu próprio corpo e o mundo que a rodeia.

O brincar permite à criança inventar e reinventar regras, explorar as diversas possibilidades dos espaços, promovendo interação e de descoberta.


O brincar estimula o aprendizado escolar de forma criativa e divertida, deixando mais fácil.

Para além da diversão, o brincar possibilita às crianças pensar, construir, decidir, experimentar, sentir emoções, cooperar, descobrir, aceitar limites e competir.

É através dessa ação que a criança vai construindo o seu conhecimento, pois quando brinca a criança enfrenta desafios e problemas, provocando a busca de soluções, criando possibilidades e curiosidades.

Vigotsky, um dos grandes pensadores da psicologia conta que “As maiores aquisições de uma criança são conseguidas no brinquedo, aquisições que no futuro tornar-se-ão seu nível básico de ação real e moralidade.”

O papel dos pais no brincar, um olhar para a infância.

Através do brincar com os filhos, os pais criam vínculos afetivos, assim como fortalece na criança comportamentos de cooperação, amizade, linguagem, empatia, respeito,  autonomia, confiança, responsabilidade,  criatividade, entre outros.

Hoje em dia percebo algumas crianças com muitos brinquedos, mas que tem dificuldade para descobrir a brincadeira. O brincar é a atividade diária da criança e o adulto deve ser responsável por proporcionar a criança um ambiente de vivência para o brincar.

É preciso que a família proporcione atividades que estimule o desenvolvimento infantil, com brincadeiras que vai além das telas. Brincadeiras simples e interações saudáveis na dinâmica familiar fazem toda diferença na infância.

Atualmente, é comum ver crianças com muitos brinquedos, mas que não sabem brincar, por estarem envolvidas nos estímulos que tiram o interesse pelo lúdico.

Permita que o seu filho brinque de forma livre, que aproveite a infância.

Na atualidade, muitas coisas mudaram, e com o brincar não seria diferente. Hoje em dia, não é raro encontrar crianças que tem pouco acesso a espaços externos, onde o brincar livre fica limitado.

Observo que as crianças estão brincando menos em ambientes livres, visto que a infância está cada vez mais confinada e imersa pela tecnologia. Onde a tecnologia tomou espaço do brincar espontâneo, para o brinca/entreter tecnológico, com celulares, tabletes, vídeo games e TV.

É enriquecedor a criança estar em contato com ambientes dinâmicos, motivadores e estimulantes, para que estas brinquem livremente, um espaço de brincar, criar, recriar e aprender, um brincar ativo, espontâneo, autônomo.

O brincar “É uma das tarefas da Infância com maior responsabilidade no desenvolvimento cognitivo, emocional, social e motor” (Marques)

Que tal resgatar algumas brincadeiras que brincávamos na infância?

Podemos brincar junto, proporcionando descobertas e experiências inesquecíveis para nossas crianças. Incentivar e ensinar novas brincadeiras, dando espaço para que a brincadeira aconteça.

Algumas brincadeiras da infância dos adultos de hoje:

1. Amarelinha

2. Pular corda

3. Stop

4. Detetive

5. Pião

6. Passa anel

7. Pular elástico

8. Esconde-esconde

9. Estátua

10. Batata quente

11. Empinar pipa

12. Queimada, baleado

13. Pique-bandeira

14. Bolinha de gude

15. Bolhas de sabão

16. Cirandas

17. Mímica

18. Caça ao tesouro

19. Dança das cadeiras

As brincadeiras antigas é uma forma de aproximar pais e filhos, resgatar memórias da infância e despertar na nova geração o interesse pelo brincar.

O Espaço do brincar pode ser

Na escola;

Na rua;

Na natureza;

Em casa;

No parque…

Brincar é mesmo coisa séria?

Sim! Brincando as crianças se desenvolvem, é uma atividade que promove o desenvolvimento global da criança, incentiva à interação entre pares, promove a resolução de conflitos e ajuda as crianças a serem cidadãos críticos e reflexivos.

As crianças não brincam de brincar. Brincam de verdade. (Mario Quintana)

Seja qual for à brincadeira, as crianças menores e maiores estão sempre aprendendo, com as brincadeiras de movimento, brincadeiras tradicionais, as brincadeiras de faz de conta.

 O brincar acontece nas famílias, nas escolas, nos consultórios pediátricos, nas sessões de psicoterapia, no consultório com a fonoaudióloga, com a terapeuta ocupacional, entre outros.

BRINCAR na escola:  vai promover o prazer e motivação para o aprendizado, melhor assimilação e fixação dos conteúdos, criação de vínculos com colegas e professores, aprender regras, limites, empatia e inclusão.

BRINCAR em família: permiti a criação de vínculos, estreitar as relações, promover boas relações afetivas e emocionais, criando um sentimento de segurança e de pertencimento que favorece o seu bem-estar.

No consultório, as brincadeiras são estruturadas e direcionadas de acordo com a demanda da criança, desde psicólogos, psicopedagogos, pediatras, fonoaudiólogo, psicomotricista e terapeuta ocupacional utilizam o BRINCAR como técnica/instrumento.

O Brincar estruturado com jogos vai trabalhar questões de atenção, memória, raciocínio, movimento, coordenação motora, entre outras.

Na terapia o brincar vai ser estruturado para a queixa emocional, comportamental ou de acordo com a demanda cognitiva, que pode estar relacionada a questões de aprendizagem.

Na prática clínica o brincar torna-se um instrumento, para obter informações sobre o comportamento da criança, fazendo parte do processo de avaliação e de intervenção, o lúdico é utilizado para aprendizagem de novos comportamentos e para a mudança de comportamentos inadequados.

Para a criança, o brincar é sua linguagem, expressa suas alegrias, frustrações, habilidades e dificuldades. (Winnicott)

As brincadeiras vão desde as mais simples, até as mais complexas. Jogo da memória, jogos de quebra cabeça, jogos de tabuleiro, banco imobiliário, resta um, UNO, jogo da vida, blocos de montar, entre outros.

É fundamental todos nós sabermos da importância que a brincadeira tem na vida das crianças, visto que o brincar é ferramenta para seu desenvolvimento saudável.

Vamos refletir sobre o que é a Infância e como as crianças se relacionam com o mundo a sua volta. Será que estamos promovendo uma boa infância para nossas crianças?

Queridos Papais, Mamães, Tias, Tios, Vovô, Vovó e Irmãos, quanto mais vocês brincarem com as crianças e promoverem condições para o brincar, melhor para o desenvolvimento e aproveitamento da infância.

Finalizo esse texto com esse poema de Loris Malaguzzi, que retrata de forma sensível o que é ser criança.

A criança é feita de cem

A criança tem cem mãos, cem pensamentos, cem modos de pensar,

de jogar e de falar.

Cem, sempre cem modos de escutar as maravilhas de amar.

Cem alegrias para cantar e compreender.

Cem mundos para descobrir. Cem mundos para inventar.

Cem mundos para sonhar.

A criança tem cem linguagens (e depois, cem, cem, cem),

mas roubaram-lhe noventa e nove.

A escola e a cultura separam-lhe a cabeça do corpo.

Dizem-lhe: de pensar sem as mãos, de fazer sem a cabeça, de escutar e denão falar,

De compreender sem alegrias, de amar e maravilhar-se só na Páscoa e no Natal.

Dizem-lhe: de descobrir o mundo que já existe e, de cem,

roubaram-lhe noventa e nove.

Dizem-lhe: que o jogo e o trabalho, a realidade e a fantasia, a ciência e a imaginação,

O céu e a terra, a razão e o sonho, são coisas que não estão juntas.

Dizem-lhe: que as cem não existem. A criança diz: ao contrário, as cem existem.

Por Illma Paula

Foto Keylla Gomes

Segue algumas referências citada no texto

Loris Malaguzzi, professor italiano que criou a abordagem educativa mais tarde nomeada como “abordagem Reggio Emilia”.

WINNICOTT, D. W. (1975) O brincar & a realidade. Trad. J. O. A. Abreu e V. Nobre. Rio de Janeiro: Imago.    

Marques, I. A. (26 de Outubro de 2015). Porque é que as crianças brincam? 

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

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